Gentle Giant

Quando se fala em Gentle Giant, é bom ter em mente que trata-se de um grupo
que sempre cuidou do Rock com a mesma devoção que o Jazz, a Música
Sinfônica, a Música Barroca e a Música Eletrônica.

Esta controvertida banda criou um dos estilos mais peculiares da Música Progressiva, pois englobaram e fundiram, em sua obra, elementos de Música Medieval, Renascentista,
Barroca, Jazz, Rock e Eletrônica de forma jamais vista, e tudo isso apoiado
em sofisticadas e complexas técnicas de contraponto e harmonia, além de
dissonantes arranjos vocais. Thierry Chatain, em sua Pequena História do
Rock’n'Roll (na História da Música Ocidental, de Jean & Brigitte Massin,
editora Nova Fronteira), escreveu que o Gentle Giant é uma “espécie de
orquestra de câmara elétrica”. Ao lado do King Crimson, puseram as cartas da
quebradeira na mesa.

Isso quer dizer que foram responsáveis por uma música
de mais difícil digestão e de mais difícil consumo, que exige algumas
atentas audições para acostumar o ouvido e para que se “adquira o gosto”
pela mesma, ou então, para que se forme uma opinião quanto a gostar ou não
gostar; o contrário do que fizeram Yes, Genesis e Emerson, Lake & Palmer,
grupos mais sinfônicos e autores de obras “um tanto mais ‘acessíveis’”
dentro do universo progressivo (principalmente o Yes). Por tudo isso o
Gentle Giant é um dos mais perfeitos exemplos da máxima: “ou você o ama ou
você o odeia”. Vamos à sua biografia e discos.

A história desse eclético grupo é basicamente a história dos irmãos Shulman
e seus amigos, tendo seu início em Portsmouth, Inglaterra, local esse que
veio a ser a residência da família Shulman, quando se mudou de Glasgow. Os
dois irmãos mais velhos, Phil e Derek Shulman, nasceram nos Gorbals de
Glasgow, Escócia (datas ignoradas). O pai deles era um trompetista de Jazz
que tocava à noite e atuava como representante de vendas durante o dia para
sustentar a família

. O primeiro contato de Derek com o Rock aconteceu em 1963, quando os
Beatles tocaram em Portsmouth. Derek matou as aulas no dia do show,
escrevendo um bilhete falso em nome de sua mãe, dizendo que precisava sair
mais cedo porque estava doente. Ele teve tanta falta de sorte, que o filme
da TV focalizou-o, fazendo com que aparecesse no noticiário noturno daquele
dia. Acredito não ser necessário contar o resto…

A primeira experiência musical semi-profissional dos dois foi em 1965, com
um grupo chamado “The Howling Wolves”, que tentava tocar Rhythm & Blues,
como os Stones. Como eles não tinham empresário, convidaram o irmão Phil
(cerca de dez anos mais velho que Derek) para a tarefa. Nessa época ele
estava na escola se preparando para o Magistério. O primeiro show que
conseguiu para o grupo foi em sua própria escola, pela cifra de dezoito
libras.

O grupo logo mudou seu nome para “Road Runners Rhythm And Blues” e
conseguiu realizar uma série de apresentações. Phil entrou em cena como
músico quando eles se conscientizaram que, para ser um grande grupo de
Rhythm & Blues, precisavam de um saxofonista. Phil concordou e comprou um
Adolph Sax e começou a aprender a tocar. Com o desenvolvimento de Phil como
músico, conscientizaram-se que deviam arranjar outro empresário. Procuraram
um sujeito em Portsmouth que tinha a fama de ser o “tal”. O sujeito prometeu
que os transformaria em megastars se eles mudassem o nome do conjunto para
“Simon Dupree & The Big Sound”. Para afirmar suas promessas, arranjou
apresentações em Southampton e Bournemouth. Mas os Shulmans começaram a
sentir que o melhor caminho a seguir era o Pop.

Nesse estágio estavam sendo
empresariados por um produtor da BBC (British Broadcasting Corporation,
rádio e TV inglesas), John King. John levou-os para Bristol afim de
realizarem uma modesta gravação, ou seja, uma fita demo, de demonstração.
John mostrou a tal “demo” para a EMI. Continha a música I See The Light, dos
Five Americans. A EMI por sua vez convidou o grupo para uma demonstração ao
vivo. Derek conta que eles tocaram em frente a três produtores, sentindo-se
muito embaraçados. Mesmo assim a EMI assinou com eles um contrato de cinco
anos. Com o contrato em mãos, uma verdadeira façanha, procuraram uma agência
de negócios. Arthur Howes os empresariou e conseguiu uma excursão com Helen
Shapiro e os Beach Boys.

A essa altura, I See The Light já era um single
tocando nas rádios. Dois outros se seguiram: Reservations e Daytime
Nightime. Como essas músicas, de autoria deles, não davam em nada, pediram
ao John King que arranjasse uma boa canção. John conseguiu numa tal de
Robbins Music, uma música chamada Kites. Derek conta que a música era tão
ruim que quase desmancharam o negócio por causa do “grava/não grava” que
saiu.

Conclusão: fizeram uma aparição no programa “Top Of The Pops” (da
BBC), partiram para a Suécia e quando voltaram Kites fazia sucesso. Chegou
até o quinto posto das paradas inglesas. Com o sucesso, fizeram muitas
outras excursões pela Inglaterra e para surpresa de muitos, numa dessas
excursões o tecladista deles foi temporariamente substituído por Elton John.
Embora estivessem indo relativamente bem, já nessa época começaram a receber
opiniões desfavoráveis a respeito de seu estilo musical.

Para fugir um pouco dessa situação, Derek e Ray gravaram secretamente um
compacto com a música We Are The Moles. Embora a intenção da dupla Moles
fosse atingir o sucesso, eles não conseguiram passar do 20º lugar nas
paradas inglesas. Isso fez com que continuassem tentando com o “Big Sound”
até o fim do ano de 1969. Mesmo depois de virem a conseguir um relativo
êxito numa temporada realizada no clube Stockton Fiesta, resolveram
dissolver a banda e fizeram uma apresentação de despedida, totalmente
maluca, na Universidade de Bath. Essa apresentação foi coroada com um buquê
de rosas entregue a eles por Adrian Henri, um badalado poeta no cenário de
Liverpool, na época.

De acordo com Derek, eles dissolveram a banda porque não estavam satisfeitos
com os músicos que os acompanhavam e também porque acabaram se aborrecendo
com o nome “Simon Dupree”. Em outras palavras, já estava na hora de passar a
limpo essa situação. E para passar a limpo alguma coisa em termos de vida,
nada melhor do que um período de reflexão.

Embora o “Big Sound” não trouxesse satisfação musical e pessoal aos
Shulmans, quando a banda terminou, eles tinham dinheiro suficiente para
descansarem um ano e formarem uma nova banda. Essa banda seria nada mais,
nada menos que o Gentle Giant.

O “Simon Dupree” era um grupo pop, sem graça, e os Shulmans logo perceberam
que com ele estavam insistindo sobre uma tecla desafinada, principalmente
quando analisavam o contexto inglês da época, e sentiam o crescimento dos
grupos progressistas. Foi quando decidiram criar o Gentle Giant.

Iniciaram seus ensaios durante o ano de 1970 e segundo eles mesmos, tiveram
a sorte de serem apresentados por um amigo de Phil a um tecladista de nome
Kerry Minear. Kerry tinha uma excelente formação, recebida na Academia Real
de Música, por onde também passou outro tecladista, Rick Wakeman (Strawbs,
Yes). Ele acabara de voltar de uma malfadada viagem à Alemanha. Havia ido
para lá junto com uma banda chamada Rust, cujo insucesso foi total e fez com
que a miséria tomasse conta dele, até o ponto de precisar ser repatriado por
seus pais. Essa brincadeira de mau gosto angustiou Minear por cerca de
quatro meses (em território alemão) e quando os Shulmans o encontraram ele
parecia um refugiado.

Kerry Minear, um dos músicos mais eruditos que o rock já conheceu, começou a
tocar piano aos sete anos de idade e antes de chegar à Academia Real teve
algumas experiências musicais em conjuntos. No primeiro deles, ele tocava
bateria, passando pouco depois à guitarra. Em casa, gostava muito de cantar
em dueto com seu pai. Na adolescência, achou que devia estudar música
clássica, escrever, compor. Essa aspiração fez com que ele chegasse a obter
o grau em composição e regência na Academia, um título pouco comum e também
difícil de ser conquistado, com conhecimento suficiente para comandar uma
orquestra sinfônica.

Com a formação jazzística que os Shulmans receberam de seu pai, somada à
formação barroca e clássica de Kerry Minear, nascia o núcleo do Giant.
Quando Kerry veio a Portsmouth pela primeira vez, para ensaiar, trouxe
consigo um guitarrista. Os Shulmans gostaram muito de Kerry, mas não sabiam
como dizer a ele que o guitarrista não servia. Quando criaram coragem,
Minear também disse que não gostara dele. Através de anúncios no jornal
Melody Maker contrataram o guitarrista Gary Green e o baterista Martin
Smith. Gary era de Stroud Green e seguramente era um dos vinte e tantos
guitarristas que eles ouviram através do anúncio.

Com os três Shulmans – Derek (guitarra, baixo, sax, violino e vocais), Phil
(sax, trompete e vocais principais) e Ray (baixo, guitarra, violino e
vocais) -, mais Gary Green (guitarras, sopros, percussão e vocais), Kerry
Minnear (teclados, violoncelo, sopros, percussão e vocais) e Martin Smith
(bateria), o Gentle Giant gravou seu primeiro LP, pela Vertigo. O produtor
era o célebre Toni Visconti. O LP não fez o merecido sucesso na época, mas
serviu para o grupo estabelecer um certo padrão musical. Esse padrão
firmar-se-ia ainda mais no segundo LP.

Um detalhe é que todos os integrantes cantavam, com os solos vocais a cargo
principalmente de Derek (a voz hard-rock, de rock mais pesado, voz mais
grave), Kerry (a voz suave, etérea) e Phil (cuja voz se situa, por suas
características, no meio das duas anteriores, no meio-termo).

Mais uma coisa: quase todos os músicos que passaram pelo Gentle Giant são
virtuoses e grandes compositores. Kerry Minear, o tecladista, é um dos
melhores do mundo (também como melodista), apesar de subestimado, assim como
acontece com Tony Banks, do Genesis.

· GENTLE GIANT (1970)
· ACQUIRING THE TASTE (1971)
· THREE FRIENDS (1972)
· OCTOPUS (1973)
· IN A GLASS HOUSE (1973)
· THE POWER AND THE GLORY (1974)
· FREE HAND (1975)
· INTERVIEW (1976)
· LIVE – PLAYING THE FOOL (1977)
· THE MISSING PIECE (1977)
· GIANT FOR A DAY (1979)
· CIVILIAN (1980)
· OUT OF THE WOODS – BBC SESSION (coletânea póstuma comentada acima) (1996)
· EDGE OF TWILIGHT (coletânea póstuma comentada acima) (1996)
· THE LAST STEPS (coletânea póstuma comentada acima) (1996)
· UNDER CONSTRUCTION (mini box set comentado acima) (1997)
(ao vivo lançado pelo selo King Biscuit comentado acima) (1998)

MARCELO STEPON

 

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Uma Biografia possível sobre Gentle Giant

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