Arquivo para Maio, 2006

Polêmicas e Discussões de Amigos

Postado em contibuição de amigos, discussões, polêmicas em Maio 14, 2006 por Fabio R.

Polêmica levantada por mim e alimentada/enriquecida ( felizmente ) por amigos. QUE FIQUE BEM CLARO : Qualquer um pode participar pois sempre há algo a acrescentar. Amigos antigos ou futuros ou simplesmente seres pensantes e/ou sinceros navegantes da Net: alimentem e enriqueçam esta polêmica com comentários sempre bem vindos. Um abraço de Marcelo Steponkevicius. TEXTO ORIGINAL QUE DEU ORIGEM À POLÊMICA.Caros amigos,

Mais uma vez dividi com vocês algumas idéias, impressões, sentimentos; convido quem estiver vivo e alerta a polemizar, simplesmente trocar idéias de maneira sincera, clara e objetiva. Assim tem feito o Márcio e o Zé Del Ben e outros amigos.

Estávamos trocando idéias (eu e o Zé ) sobre como este meio importantíssimo para comunicação (a internet) tem sido desperdiçado pelos usuários. A internet, orkut, etc não servem tão-somente para repassarmos besteirol ou banalidades. Não podemos reproduzir estas mesmices pois somos seres com conteúdo e com vivência as mais variadas e, simplesmente, estamos jogando no lixo nosso potencial para realmente comunicarmos coisas mais relevantes ao ser humano (conflitos, idéias, criatividade, arte , cultura, resistência, etc, etc, etc).

Estamos numa época em que as pessoas estão se isolando, atomizando, alienando, pulverizando e sumindo na poeira da rotina massacrante!…Por conta de quê esquecer-se de si mesmo ? Por necessidade de descolar milequinhentos réis, dois mil , três ? Creio que a qualidade de vida e de

nossa interação vale muito mais que o vil metal.Parece que não nos sobra tempo para viver, apenas para cumprir obrigações, então viver torna-se uma obrigação também?

Nossa incomunicabilidade, como qualquer doença, pode tomar-se crônica, as máscaras podem endurecer em nosso rosto, e de tanto fazer média, vamos nos transformando em homens -média, medíocres, pulverizados e domesticados… Nesta rotina mórbida de cada dia vamos morrendo e entrando num tipo de embotamento cerebral, afetivo, repleto de passividade e desespero contido ( reprimido )./Alguém já pensou nisso ? ou melhor, alguém já sentiu isso ou estou falando com as paredes? Sem intensidade a vida não tem sentido, ao menos com meus amigos quero uma liberdade de movimento, de comunicação. Quem são meus amigos? Aqueles desde tempos passados ou todos aqueles que quiserem, aqui e agora , com respeito porém sem muita formalidade ; mas,… sem comunicação não dá!!!

Marcelo Stepon (04/2003)

Respostas

Olá, Marcelo
Há um bom tempo venho pensando sobre algumas questões mencionadas por você neste e-mail. Aí vai, então, um breve comentário.
Cada vez mais tomo consciência de que essa nossa vontade de que o mundo desacelere um pouco, ao menos em alguns momentos, é apenas a vontade de um pequeno grupo que sofre como você por não poder curtir com maior tranqüilidade o que há de bom. O homem se preocupa tanto em “evoluir”, e se esquece de reservar um tempinho para aproveitar aquilo que criou. Tem de reaprender a saborear as coisas da vida.
Há quem diga que o ócio é o pai de todos os vícios, eu vou na contramão e digo que é o pai de muitas boas idéias. O ócio é criativo e produtivo!!! Acho que o ritmo alucinado e o isolamento típicos da vida moderna, por parte de muitas pessoas, mais do que medíocre é estratégico, assim ninguém se relaciona com ninguém e fica tudo na superfície, é mais fácil assim. Pra que trocar idéias? Pra que conviver com o outro? Pra que tentar entender o diferente e aprender com ele? Pra que correr o risco de reconhecer uma parcela de culpa pela miséria alheia? Deixa assim.
São as mesmas pessoas que não trocam um tostão por uma conversa com um velhinho na esquina. Ao contrário, fogem deles para não correrem o risco de sentirem de alguma maneira ligados a uma outra realidade. Ter consciência é arcar com responsabilidades. Abrir mão do luxo? Abrir mão das regalias? Só nós mesmo!!!
A gente não quer só comer,
A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comer,
A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só dinheiro,
A gente quer inteiro e não pela metade.
(Titãs)
Um grande abraço,

Eclicia (USP ,Cursinho da Poli)

Marcelo Li atentamente o seu e-mail e concordo contigo, hoje em dia é muito mais fácil você mandar um e-mail para um amigo e perguntar como ele está, contar sobre sua vida do que encontrá-lo pessoalmente e bater um papo casual. A Internet é mais do que isso, a vida é mais do que isso, mas também não podemos esquecer que vivemos num mundo capitalista onde existe a Reificação do Homem, ou seja, o homem é coisificado, ele só tem valor pelo que tem e não pelo que é.Mergulhamos na nossa sufocante rotina e esquecemos de que viver não é só trabalhar, estudar, etc e sim nos divertirmos e sermos felizes, mas como hoje em dia está cada vez mais difícil o custo de vida somos obrigados a agirmos friamente e pensarmos individualmente, não que eu concorde com essa rotina mas não posso negar que também faço parte dela.Acredito que o importante seja buscar a felicidade do jeito que for, alienado ou não, cada um sabe das suas prioridades.
Michelli Suga 11/05/03

Stepon, nosso anarquista querido!
Li os textos todos e fiquei muito reconfortada em saber que essa “solidão” que venho sentido não é exclusivamente minha. Venho de uns tempos para cá percebendo todos em volta nesta mesma sensação, principalmente os desgarrados da mãe USP. E me pego tendo saudades enormes daqueles tempos de mesa de bar antes da aula, das conversas intermináveis, das bandejadas, das festas, e tudo mais.
Devido a particularidade da minha vida noturna, de massa operária oprimida feminina e mal-dormida, deveria fazer odes à internet. E tenho uma mãe que até encontrou namorado na internet! Eu só não faço porque pra mim internet significa trabalho. Eu sento e fico horas pesquisando coisas e coisas, grafia de nome de jogadores, conferindo resultados de jogos. E quando saio de lá quero que a Internet se exploda. De vez em quando anarquizo como você, uso a Internet como correio, escrevo cartas intermináveis aos meus amigos. Sempre coisas pessoais. Ainda acho que Internet não substitui a velha mesa de bar, a velha poltrona lá de casa que a gente rechela com a bunda dos amigos.
Mas tenho notado uma coisa cunosa. Tendo esta teoria em mente faço de vez em quando convocações lá em casa pra matar a saudade dos amigos (vocês são dois furões nestes eventos, né mesmo? Mas eu entendo, vocês moram depois do Vale dos Dinossauros, precisam entrar na caverna dos Slitaks pra achar o caminho até aqui). Mesmo colocando as pessoas juntas elas continuam distantes! Sim, quando todos vão embora eu ainda continuo não sabendo onde apertam seus calos, quais os seus amores atuais, quais as suas grandes dúvidas existenciais E todos saem sem saber muito o que acontece aqui comigo e com o Zé nestas paragens. Isso acontece até com os amigões do peito! E ao me dar conta disso caí numas de horror e mágoas. Depois entendi muitas coisas e não culpo mais ninguém. Entendi que as pessoas ficaram tão imersas nas suas vidas particulares (até mesmo aqueles que não estão acumulando confortos, veja lá) que não sabem mais como encontrar as vias normais pra canalizar os sentimentos, as carências. E fica aquele baile de máscaras, todo mundo bem resolvido. Mas no fundo estão lá gritando para que os velhos e bons amigos venham pegar no colo e salvar! Gritam alguns ainda pela velha mãe USP. A maioria, e eu me incluo nessa, depois da USP, tivemos que tomar um rumo, arrumar um emprego pra pagar as dívidas, arrumar casa, se acertar com alguém, arrumar filho, arrumar cachorro (no meu caso ratos de laboratório), enfim o mundico particular que você mantém por sua própria conta e risco. E não estou criticando isso, acho até que é um processo muito natural, tem a ver com o nosso amadurecimento. Só que esquecemos de incluir nisso a vivência fraternal também.
Quando morava com o meu pai era a maior dificuldade em juntar os amigos lá em casa. O seu Romano, um portuguesão arretado, era casca dura com eles. O meu sonho particular era ter um espaço meu onde eu fosse a dona do galinheiro e pudesse me rodear de gente. Então quando finalmente arranjei o meu cantinho e me amiguei com um fuleirão de primeira que é o Zé (não conheço pessoa que goste tanto de festas e de gente como o Zé), pensava que agora sim ia poder ter a casa cheia de gente, gente dormindo por aqui, abrindo a minha geladeira, batendo os tais papos intermináveis, jogando um carteado. Arrumei até um quartinho com cama pros que fossem pernoitar por aqui. Que decepção! Não havia percebido que afinal todos os amigos estavam fazendo a mesma coisa que eu!
Daí vem você mandando este texto e dizendo muitas coisas sobre tudo isso, mesmo que o assunto principal fosse internet! Porque o que estamos precisando não é de internet, é de uma somaterapia generalizada, anarquizar
nossas velhas e novas relações. -
De qualquer forma Step, a gente não pode se frustrar inteiramente com as pessoas. Tem as contingências que levam ao isolamento, mesmo a gente tentando remar contra. Eu vou continuar chamando incansavelmente as pessoas pra virem aqui pras batatas assadas, as feijoadas, as festas de aniversário, as seções de vídeo. Porque a gente tem que deixar as portas abertas sempre, principalmente pros desesperados dessa vida cotidiana massacrante que resolvem enfim lutar contra isso.
E daí do seu lado continue marcando os eventos musicais, os Walter Franco, os Elomares, os Geraldos Azevedos, os Focus (ai, eu perdi essa!). A música embala a gente, nos reconforta sempre. E é claro os acampamentos organizados na casa do Zé Delbem.
Bien, mon ami, tenho que te deixar sozinho com seus botões. Tem um monte de perna de jogador preu admirar lá na ilha de edição. O duro é aguentar o que eles dizem nas entrevistas…
Uma coisa ainda, estamos dentro da caravana pro Zé, nos mantenha informados de como anda a coisa. Vamos ter que arranjar um camelo? Vai ter que levar comida?
Bisous procê e pra Li, pra sua mãe que é um doce, e pro au-au
os ratinhos lá em casa pediram pra mandar umas mordidinhas
e o Zezim manda um abração
E manda um tapa na bunda do nosso amigo Luis sumido!

Crisim

Olá Eclicia, Marcelo, meu povo e minha pova.
Olha eu de novo enchendo o saco. Ô beleza, adoro encher o saco.
Estou comentando o e-mail da Eclicia, que apesar de ser mulher (hi!hi!hi!hi!) está com os neurônios funcionando.
Vamos questionar então, qual a necessidade do ser humano se relacionar num grupo – coloco como observação que isto acontece no ocidente, no oriente é de uma maneira diferente, não melhor nem pior, apenas diferente.
Como temos vários tipos de pessoas, temos várias situações, que em alguns casos podem até se contradizer, mas tenho algumas idéias sobre a necessidade do grupo na sociedade
1. Necessidade de amor e proteção: eu me relacionando num grupo me sinto protegido e me relaciono com pessoas que pensam de um jeito parecido com o meu e me aceitam do jeito que eu sou (aceitação = amor).
2. Em nossa cultura cristã, que delineia a vida como sendo uma só, as pessoas estão em frenezzi querendo fazer tudo o mais rápido possível, “por que, afinal de contas, tenho só 70 anos de vida”. Esta pressão constante na cabeça das pessoas criou um stress e como comentei no e-mail anterior, por prazer aqui e agora o tempo todo. Trouxe coisas positivas, como tecnologia, mas se a tecnologia não traz felicidade e paz de que serve?
Já ouvi muitas pessoas falando isto, mas eu sinceramente acho que não vale a pena. Mas continuando sobre os comentários de grupo, acho que esta pressão na cabeça das pessoas faz com que as pessoas fiquem estuprando sua mente o tempo inteiro, elas precisam de pessoas para poder conversar, vomitar tudo o que fica ricocheteando na cabeça, – tantos pensamentos em como ser feliz em apenas 70 anos – como melhorar o prazer, como mudar o mundo para ele ser mais feliz, sendo que a felicidade é um estado de ser que lhe acompanha o tempo todo, só que a nossa preocupação em fazer com que as coisas saiam do nosso jeito (ego) impede que aceitemos a vida do jeito que ela é. Perceba a diferença, não estou falando para você aceitar a hipocrisia, demagogia e maldade criada pela dominação da mente humana, estou falando de você aceitar a vida como ela é, aceitar a brisa da manhã acariciando seu rosto, aceitar o seu corpo do jeito que ele é, aceitar o bem-te-vi cantando pela manhã enquanto o sol nasce. Mas só que as pessoas não querem aceitar isto, enquanto eu caminho quero mudar o mundo, às vezes olho para os lados e percebo todo mundo querendo deixar o mundo à sua maneira – já perceberam a loucura disto? A vida é natural, a natureza é pura e inocente e vocês já perceberam o poder que ela carrega dentro dela? Muitos de vocês lendo isto provavelmente devem estar pensando que a bomba atômica é mais poderosa, mas mesmo se o homem quisesse se auto destruir e destruir o planeta inteiro, depois de alguns milhares de anos a natureza voltaria sutil e intocada. Vá até o mar num dia de tempestade para você sentir o que estou querendo lhe passar, pois as pessoas estão tão carregadas que não percebem o poder da brisa da manhã movendo as folha mortas pelo chão, não sentem que este é o mesmo poder que traz as tempestades pois em tudo há um equilíbrio natural. Só a mente humana toma tudo pesado e fedido. Ai muitos de vocês pensarão, “não é verdade, a mente cria muitas coisas bonitas também”, mas pergunto-lhes se tudo que existe de bonito foi realmente produzido pela mente. Coloque-se na frente das obras de Michelangelo ou Van Gogh que você sentirá que eles estavam tão cheios de êxtase que eles tinhas que se expressar de alguma forma, isto vinha do coração. Leia um poema que fala de coisas que lhe toquem e você sentirá que isto não veio com certeza da mente. Veja um dançarino perdido em sua dança, a beleza disto, e você perceberá que a mente não está interferindo, não é uma coisa mecânica, é algo que vem e vai com o dançarino. Atualmente os cientistas dizem que até as galáxias dançam umas ao redor das outras, que até as partículas mais ínfimas dos átomos são apenas ondas de energia, apenas energia dançando e brincando.
Por estas e outras coisas que sinto que não quero regras, não quero controle.
A única coisa que desejo é liberdade, liberdade para viver e amar, para dançar e celebrar o mistério que é a vida.

Jivala (Márcio Thomaz)

Olá Marcelo, olá Marcio e a todos que lerem estas minhas breves reflexões
Respondendo ao texto do Márcio, acho que a estrutura da sociedade em que
vivemos, independentemente da classe social a que pertencemos, enfatiza cada
vez mais a idéia de ser massa, tanto faz se mais elitizada ou não. A idéia corrente é: faça parte de um grupo, se comporte como grupo, pense como o grupo; então aquele sujeito que não se localiza, ou percebe que há mesmo algum diferencial (graças a Deus!) em vez de colocar esse lado pra fora vira algo amorfo para se encaixar em algum perfil, traçado por um outro.
Como taunna que sou, sei bem a força da vontade de manter sempre os pés
no chão com a finalidade de ter tudo sob controle. Mal sabe o ser humano que
ele não controla coisa alguma e quanto mais previsíveis as coisas, mais chatas e vazias se tornam.
As máscaras certamente são várias. Acredito que todos nós temos facetas diversas e, assim, reagimos também de maneiras diferenciadas em cada situação. Talvez o problema maior aconteça quando a máscara se cola de tal maneira ao rosto que não sabemos diferenciar o original e o artificial. Ela sufoca, impede o respirar, impede o mostrar quem somos.
Quando você diz que ninguém gosta de ser mecânico e repetitivo, volto a uma idéia já comentada com Marcelo: a mim parece que para muitos é mais fácil ser assim, ao menos num primeiro momento. Reconhecer-se em meio ‘a massa cria conflitos – na minha visão altamente produtivos – porém muitos querem justamente não se envolver em conflitos. Só chega ao nível de compartilhar experiências particulares aquele que está disposto a se desprender de algumas convenções, disposto a se expor. Alguém que entende a existência de visões de mundo diferentes capazes de se complementar. A escravidão na sociedade moderna tanto é imposta a alguns como escolhida por outros. Diferença brutal em relação a outros tipos de escravidão.
Cada vez mais acredito que há uma parcela que teima em ser cega, pois assim não precisa arcar com as responsabilidades de enxergar um mundo muito maior. Ê terrível! Falo isso até mesmo pensando nas pessoas que conheço em meu trabalho. Meus 1.700 alunos a cada dia me ensinam que a comodidade de dizer que o sistema, a escola, o namorado … ferrou sua vida é maior do que bater a poeira. Há muitos cegos que não querem ver. E estas pessoas sabem exatamente quais são suas prioridades. Não sabem infelizmente o que perdem com isso.
Taí a minha contribuição, Abraço, Eclicia
Com toda certeza, diversas vezes, deixamos de expressar coisas importantes para fazer idiotices. Temos que tomar cuidado para não acabarmos idiotas. Ter uma discussão acalorada com alguém (ou alguns) , por ideais e idéias, ou apenas por esporte, nos fariam muito mais inteligentes e humanos.
Alessandra

Olá Marcelo, Marcio, seu povo e sua pova.
Como seu lance é meio que encher o saco (brincadeira!), vou desconsiderar aquela história de ficar feito cachorro perdido atrás de cada gostosa que passa (aqui é sério!) e esse comentário maldoso sobre as mulheres. Quer dizer, pensando bem em alguns casos o comentário é verdadeiro. Ainda bem que eu fiquei de fora!
Fiquei curiosa em saber mais detalhes dessa sua comparação entre a necessidade da identificação, própria do ocidente e do oriente. Fico pensando se uma variação maior de grupos ou situações garante mesmo uma independência maior. Isto não tem a ver com a questão de buscar identificação? Afinal a identidade se forma tanto com o reconhecimento de um grupo ao qual pertencemos, quanto com o reconhecimento do que é diferente e que acaba servindo de reafirmação de nossas crenças. Aquela idéia de que o homem foi feito pra viver em grupo mesmo e está sempre procurando sua turma.
As pessoas, hoje, realmente têm pressa. Vivemos um época em que pouco restou da vontade de se experimentar coisas, de errar, de cada um descobrir seus caminhos. È a era da tecnologia, mas também a dos manuais: como ser um bom pai, como cuidar do seu namorado, como não deixar seu cachorro frustrado, como ser bem-sucedido, como conviver com seus inimigos, como ser um bom filho, e por aí vai. Isso mostra uma busca desenfreada por modelos nos quais as pessoas simplesmente vão se encaixando. Mas será que alguém se pergunta sobre o aspecto individual? Voltamos, assim, a idéia de garantir segurança. Há quem acredite piamente nisso, fazer o quê?
E essa história de querer deixar o mundo como está vai ferrando as nossas vidas. Ontem, meio a contragosto, só pra dar uma conferida, fiji assistir ao filme Carandiru. Até entendo a presença de alguns momentos para provocar riso, afinal o tema por si só é tão pesado que se não fosse isso a situação na saída poderia ser bem ruim. Mas fiquei furiosa mesmo porque uma boa parte das pessoas estava lá pra ver o Rodrigo Santoro, um bom ator por sinal, fazendo papel de Lady Dy. Pra muitos o momento de maior tensão foi quando ele teve que beijar seu parceiro na boca. Que sociedade é esta que não percebe a realidade por trás de tais histórias? Grande parte das pessoas saem do cinema como se tivessem assistido a uma comédia e pensando somente nas próximas compras. Eu saí de lá passada só de imaginar que aquela é a realidade de muitos. O distanciamento dessas pessoas é profundamente grande. E são elas que impedem ou nada contribuem para mudar o mundo. A ficção parece estar do lado de cá da tela.
Quando a sociedade vira uma entidade e o EU desaparece fica fácil se manter distante, afinal o culpado pelas misérias é sempre um outro. A outra crítica faço em razão do final do filme (claro que não vou contar o que acontece!), mas depois de todo aquele animalismo e selvageria provocados pela própria sociedade, o filme termina com um momento quase poético, digno de se dizer “Que lindo, nãol”. Como é que vamos mudar alguma coisa?
Que bom que pessoas como nós sentem imensa satisfação em receber essa brisa no rosto ou bater um papo como os amigos, além de nadar contra a corrente enquanto nos restarem forças. Pra finalizar, peço sua licença e tomo suas últimas palavras como minhas: a única coisa que desejo é liberdade, liberdade para viver e amar, para dançar e celebrar o mistério que é a vida.
Até o próximo,

Eclícia

Marcelo isso não e só um texto.e sim uma realidade que estamos vivendo…
o comentando meu sabre o seu texto e o seguinte…
somos seres humanos vivos porque temos liberdade..sem liberdade estaríamos mortos…
poema…
“o ser perfeito”
estou triste quero escrever sobre a felicidade; pena que não estou feliz para escrever sobre a tristeza; Jefferson (Poupa)
Não o conheço, mas recebi sua resposta à mensagem de outra pessoa que também não sei quem é. Conheço apenas o Stepon. Como pôde observar, “responder a todos” é algo que deve ser usado caso esse “todos” se conheçam. O recomendado seja pela falta de segurança da internet seja pelo bom-senso é enviar resposta ao remetente e ele poderá enviá-la aos outros se considerar adequado.
Entendo sua resposta e concordo em grande parte. No entanto, acredito que cada um pode sim fazer muita diferença caso não fique sentando achando que não faz. Faço meu quinhão contra a fome, por exemplo, muito antes de o governo
Lula me pedir pra fazer (e tirar mais de meio corpo fora). Não compro produtos americanos e chineses e faço coleta seletiva. Faço o que posso e converso com os outros. Mas é preciso respeitar a opinião das pessoas mantendo o diálogo, pois há muitos que se julgam “os donos da verdade”. É preciso haver reflexão e atitude na vida, mas também é necessário alegria e cada um alcança a sua como gosta. As grandes mudanças ocorrem lentamente com pequenas e constantes mudanças de atitudes e não por decreto. Faça o que vc pode concreto e á ajudará bastante.

Adnana (USP)
Olá pessoal.
Tudo isso é muito bonitinho, só que até hoje não vi ninguém por em prática nada disso, ficar filosofando sem agir também não leva a nada, tenho recebido e-mails de todo tipo desde recomendações de dieta com alimentação saudável até planos elaborados de boicote a produtos norte-americanos e postos de gasolina, porém não tenho visto nenhum resultado prático de tudo isso, minha opinião é que está na hora de parar um pouco com o blá blá blá e fazer alguma coisa concreta.
Desde minha adolescência sempre teve alguém para ficar falando sobre injustiças sociais, corrupção e discriminação, porem a única vez que vi uma mobilização real foi no impeachment do Fernando Collor, mas acredito que isso foi por conta de um imponente veículo de mídia que estava por trás de tudo.
Sugiro que todos façam uma auto-avaliação e vejam se realmente estão contribuindo para alguma melhora real e que levantem as mãos aqueles que nunca adquiriram um CD pirata ou não possuem software pirata no micro, aqueles que nuca disseram não para um pedinte, aqueles que sempre cedem seus lugares na condução para idosos e deficientes, aqueles que nunca jogaram lixo nas ruas, aqueles que nunca transmitiram pornografia e piadas pela Internet.
A melhora real do país e da qualidade de vida não depende somente do governo seja ele de esquerda ou de direita, seja ele idealista ou não, a melhora depende de cada um de nós, cada pessoa tem procurar fazer o melhor para si e para os outros e isso não tem que ficar só na idéia.
Bom, acho que também já falei baboseiras demais.
Um abraço a todos, mesmo àqueles que eu não conheço.
(Toninho Vila Ema e da banda “os bombinhas”)
Aí, Stepon, você “bateu uma bola redonda” neste seu texto, heim! Matou a cobra e mostrou o pau!
Você não perdeu a irreverência e a contundência (felizmente). Parabéns, falou do seu jeito aquilo que certamente se passa no consciente de muitos amigos nossos e no inconsciente de muitos outros mais. Seu texto-manifesto, suas palavras de ordem, suas declarações de valores jamais serão demasiadas frente ao demasiado embotamento de sentimentos e idéias a que estamos sujeitos na rotina massacrante de nosso dia-a-dia. E se eu entendi bem sua mensagem, concordo que se não colocarmos lenha nesta fogueira de resistência que nos aquece acabaremos isolados no frio da apatia mecânica e vazia dos sujeitos sem imaginação e sem nervos.
Um abração, camarada!

(Zé Del Ben)

Eu entendi que o homem de hoje está a mercê da comunicação informativa, e esquecendo de suas razões ou origens que faz realmente o próprio se sentir mais útil.

Moacir(Javali-pé de cana)

Oi Marcelo,
Concordo em parte com sua opinião. Não acredito que a internet seja um bom meio de comunicação entre os amigos, porque penso que amigos devem se encontrar pessoalmente. Hoje vivemos relações mediadas pelos meios de comunicação, muitos dos nossos amigos mandam um e-mail dizendo: “vamos nos encontrar!”, porém poucos agem concretamente neste sentido. Isto é uma coisa que me incomoda muito.
Acredito que a internet é ótima para fins específicos, entre eles a troca de informações, porém não pode substituir as relações concretas. Imagine que existem amigos que nem falam mais comigo por telefone, só por e-mail. Outro dia, uma amiga estava reclamando de um grupo de trabalho da pós, pois eles queriam resolver tudo por e-mail, pois não tinham tempo de se encontrar para discutir o trabalho.
Aliás, outro discurso que as pessoas adotaram foi o da falta de tempo. Acho que temos sim que trabalhar, enfim sobreviver é uma necessidade. Encontrar o equilíbrio entre a necessidade de sobrevivência e o prazer de viver é realmente muito difícil, penso que são poucos os ‘felizes’ que o conseguem. Penso que este equilíbrio é uma equação muito pessoal e singular, caso contrário seria muito fácil não? Não sei se o que vai dar certo para você pode dar para mim… e assim vai.
Eu vivo este conflito, as vezes bem lá embaixo… e outras um pouquinho mais equlibrada. Vou terminar com a celebre frase “Vamos ver se a gente se encontra!”.

Fátima (usp)

OLA MARCELO SAIBA Q GOSTEI DE SEU
TEXTO VC TEM RAZÃO NAS PALAVRAS EM Q ESCREVEU E UMA GRANDE REALIADE TUDO Q DISSE QUERO PODER COMPARTILHAR MINHAS IDEIAS COM VC TAMBEM

Denise

Ao mesmo tempo que a indústria humana criou uma ferramenta de comunicação, tomou-se evidente a grande contradição que o nosso século terá que explicar de alguma forma . Esta contradição dá-se pelo fato das pessoas buscarem um isolamento no aconchego do seu lar, desta forma fogem do mundo real e embrenham-se num mundo de ficção.Um mundo onde elas podem ser o que não são, podem fantasiar, e até mentir, podem esconder suas fragilidades, transmitem às pessoas que não as vêem tudo o que elas gostariam de ser ou não. Assim o irreal toma-se realidade, as fragilidades são escondidas e, de uma forma virtual as pessoas se realizam. Neste processo o indivíduo se distancia de outro indivíduo, os amigos não conversam frete a frente, pais e filhos se prendem, ou ao mundo virtual, ou aos programas” instrutivos “da rede globo, sbt e outras porcarias que lhe são oferecidas gratuitamente. O curioso é que juntamente com a internet, estes programas de tv são considerados como meios de comunicação. Será que os homens estão se comunicando ou estão ou estão prestes ao retomo do HUGAHUGADÁDÁDÁ.
Genário

Estamos vivendo num hipermercado onde as prateleiras estão cheias de produtos chamados seres humanos. Somos consumidos pelo capitalismo como objetos. Eles devorarão nosso conteudo e jogarão a embalagem no lixo onde canibais brigarão entre si para consumir o resto que sobrou. Nossos preços são remarcados dia após dia. Estamos concorrendo com nossa própria imagem crescemos ouvindo sobre a fórmula que devemos tomar para sermos homens de um futuro brilhante. Talvez este seja um dos motivos por que “as máscaras vão endurecendo em nosso rosto”
Jefferson

–“Há tempo para tudo, há mesmo um tempo
para que os tempos se reencontrem…”

Caro Marcelo, Eu gostei muito do texto e achei interessante ter
abordado a questão do tempo; o que hoje é o grande problema eu creio que da maioria da sociedade. Não digo todos mas a maioria da população está mesmo preocupada com “status” se é assim que posso chamar essa chatice. Querer o melhor não é ruim,só que estas pessoas se esquecem de viver para ter uma grana a mais… exemplo este o qual vivencio em minha família:
primeiro se sufocam no estudo depois num carro melhor,uma casa melhor,as melhores roupas,amigos de posse…
freqüentar lugares badalados para “reuniões” (nada de se divertir curtir a vida deixar o corpo livre para novas emoções).
Creio eu que a vida está além de um bom salário,uma posição social elevada…
Muitos conseguem ter tudo isso,só que não conseguem sorrir e ser feliz como nós tentamos ser…
Sueli

Olá, Marcelo!!!
Achei particularmente interessante seu questionamento porque há 20 anos atrás escrevi algo exatamente sobre isto. A falta de tempo das pessoas, a frieza nas relações cotidianas que levam ao distanciamento. Lendo seu manifesto senti meu texto tão atual que pergunto…. E ai, o que acontece??? Porque mesmo com toda evolução ocorrida nos últimos 20 anos as coisas não mudaram ??? Porque as queixas continuam as mesmas ??? Sinceramente acho até que mudaram, mas para pior em alguns aspectos.
Estamos em tempos de inversão de valores. De busca frenética pelo sucesso e bem estar social e assim, muitos passam a vida inteira procurando sem olhar para dentro de si, sem parar para se curtir e sentir que o que buscam sempre esteve ao seu alcance, em seu íntimo. O frenezi em que vivemos por vezes nos faz esquecer de nós mesmos.
Assim como a sua amiga Crisim, na adolescência também tive planos de independência e liberdade. De morar sozinha, ter uma casa legal para reunir os amigos (galera louca e descolada) para trocar idéias, ouvir som alto quando tiver vontade e beber vinho com prazer. Mas o mesmo sistema do qual estamos falando também exerceu seu poder sobre mim. As obrigações e responsabilidades foram aumentando, o pessoal foi dispersando, casei, mudei, tive filhos, o cara que parecia ter tudo a ver comigo não era bem assim, me distanciei dos amigos antigos por vários motivos,….. e o tempo sempre levando a culpa. É claro que também conquistei novos e excelentes amigos. Mas só quando voltei a olhar para dentro de mim, encontrei muitas respostas que buscava. Me fortaleci novamente para lutar contra as imposições sociais que me incomodam, me separei, e retomei meus planos de independência. O tempo apesar de curto está sendo valorizado. Aliás, é engraçado….. o tempo é o mesmo para todos mas sempre haverá pessoas reclamando que ele é insuficiente….(como eu às vezes ainda faço).
Hoje ao invés de cobrar muito das pessoas procuro entende-las. Caramba, se um(a) amigo (a)não tem tempo para ir até a minha casa tentarei dar um jeito de ir até a casa dele(a) ou de nos encontrarmos e se ele(a) quiser mesmo este encontro com certeza o tempo aparecerá. Ano passado fiz isto. Fui até a casa de dois antigos amigos, um eu não via há mais de quinze anos e o outro há pelo menos uns dez anos. Sabe o que aconteceu ??? O abraço teve o mesmo calor de antigamente; o tempo e a distância, e mesmo este sistema massacrante, das máscaras como você diz, não afetou nossa amizade. Ficamos muito felizes, brindamos à saudade. Não sei se ficaremos mais tanto tempo sem nos ver, mas atualizamos nossas formas de contato….endereço, telefone e é claro….e-mail (afinal temos que usar a tecnologia a nosso favor).
Sabe Marcelo acho que é normal do ser humano ser ou estar insatisfeito. O que não podemos é desistir de tentar mudar. De nos atrever a subverter a ordem das coisas quando elas nos incomodam, sempre respeitando os outros, é claro. Sejamos desafiadores do tempo e com o tempo. Vamos quebrar a frieza dos insensíveis com nossas gargalhadas, com o estalar dos beijos dos amigos (porque não?!?). Afinal… I can’t get no, satisfation / But I try….I try….I try…. (Mick Jagger- Keith Richards)

RITMO URBANO

LOUCURA NA CIDADE
MILHARES DE PESSOAS DE LÁ PARA CÁ
MILHARES DE PESSOAS QUERENDO SE ENCONTRAR
SÃO MENTES ATORDOADAS
COM MEDO DE SE ENCARAR
COM VERGONHA DE SORRIR

PESSOAS DESENCONTRADAS,
MENTES ATORDOADAS

ESTOU SÓ!
INTERESSES ESPALHADOS…
OLHARES QUE ME COBIÇAM
OLHARES QUE ME CRITICAM

MAS QUE DROGA !!!

O SOL BRILHA SOBRE NOSSAS CABEÇAS
MAS A CIDADE ESTÁ GELADA.
EU TENHO FRIO….

AS PESSOAS TÊM PRESSA…
AS PESSOAS TÊM MEDO…
ONDE ESTÃO OS SORRISOS? – EU TENHO FRIO!…
A CIDADE ESTÁ GELADA!!!

(12/10/84 – Naonde)
Enviado em 03/2005

Caros amigos, continuem esta polêmica, tendo em vista o
texto inicial e/ou as repostas enviadas .
Envie seu comentário.
Obrigado